histórias

ÁGUA (projeto em andamento 2018-2020)

Cruzei um trecho caudaloso do rio Jequitinhonha, em Minas Gerais, com meu carro sobre uma balsa. Parecia impossível reconhecer que justamente a água era um problema por ali. Um pouco mais adiante, quando passei por uma fazenda árida na comunidade Retiro, entrei na residência de Dona Márcia Lima. Ela começou se desculpando pela bagunça da casa. Tentei criar um ambiente descontraído. Mas ao invés de causos, desta vez pairava uma ansiedade no ar. Contei que eu estava ali para entender seus problemas relacionados à água. Foi quando que ela não resistiu, e começou a chorar com as mãos trêmulas sobre os olhos “Eu pedi hoje mesmo a Deus que me enviasse anjos, e vocês apareceram!”. Ela continuou “Nós vive nessa miséria, olha as roupas que estamos usando. Bebemos só a água da chuva e nós banha num lamaçal”. Márcia me leva a uma nascente desprotegida que estava fétida e esverdeada. É a única forma de tomar banho, mesmo na época de chuvas. O caminhão pipa é um curativo não sustentável à situação, impondo aos moradores desesperadores noventa dias, ou até cento e vinte dias dias, para que uma família seja contemplada com a entrega de água tratada. “Fazemos tudo que podemos, não temos recursos, às vezes o que dá pra fazer é enviar o caminhão pipa uma vez ao dia. É uma família de cada vez, olha o tamanho da lista” me conta o Secretário de obras da cidade de Almenara, Juraci Botelho, com uma pilha enorme de papéis na mão.

Este ano, todo o vale do Jequitinhonha alimentou o plácito de um período mais chuvoso, com boas perspectivas para a lavoura, depois de mais de 7 anos de estiagem. Passou janeiro e fevereiro e nada. Em plena estação de chuvas, o que vimos até agora foram apenas duas precipitações fortes, porém rápidas, que caíram em áreas dispersas e serviram apenas para dar um breve ânimo aos esperançosos trabalhadores rurais deste vale de cerrado, cheio de grotas e algumas veredas resilientes, no nordeste mineiro. Depois de nos mostrar uma Jibóia que tinham acabado de matar, Dona Márcia vem se despedir de mim “Dizem que estou ficando louca, mas não estou. Como se pode viver assim? A coisa que eu mais quero no mundo são meus filhos perto de mim... e água!”

O clima mais seco bagunçou a vida no vale mineiro de uma década pra cá, transformando a situação num inferno pessoal para os que moram em comunidades mais afastadas dos grandes municípios. São pequenos grupos rurais, famílias dispersas e alguns quilombolas que vivem como podem com pouca água e em constante espera de chuva para abastecer suas cisternas. São regiões como as que visitei de Córrego de Narciso, Prata, Chapada do Norte, Palestrina, entre outras. Em locais como estes, os jovens migram para as cidades grandes, e os pais, geralmente com idade avançada, não dão conta da roça, cuja produção mal dá para o consumo próprio. Sem alternativa, precisam sair e comprar em mercados, gastando o que ganham de aposentadoria ou do Bolsa-família, acabando com suas economias para ter pelo menos um café para tomar. Essa região do Brasil sofre especialmente com a crise da água, pois ao contrário do vizinho semiárido no Nordeste, o vale do Jequitinhonha é um ponto de confluência de biomas. Pior ainda, teve grande parte de seu cerrado (flora e fauna) devastado pelas plantações infinitas de eucaliptos, cujo destino é virar carvão para aquecer os fornos da indústria siderúrgica. E o reflexo mais facilmente percebido da insustentabilidade dessa cadeia produtiva de metais pesados é o dreno de nascentes em encostas. As minúsculas linhas d’água que perenizam o rio

Jequitinhonha através de seus afluentes passaram a secar de forma assustadora. Em outros casos estão assoreando e poluindo rios como o Fanado e o Araçuaí. Na casa do Seu André Dias eu comia um delicioso requeijão fresco num domingo de manhã, na cidade de Turmalina. Então ele me mostrou na parede um desenho em uma cartolina que ele teve o cuidado de mapear: as nascentes conhecidas da região e o destino de cada uma delas. Das 29 que existiam, 4 já secaram.

No passado não costumava ser dessa forma. A confirmação recorrente em conversas com mais de 20 famílias em diversas comunidades do Vale do Jequitinhonha em fevereiro de 2019, constatei a partir da boca dos moradores (quase todos nascidos ali mesmo), que o clima mudou. Muito. As chuvas eram mais regulares e melhor distribuídas. “Estamos observando uma mudança do padrão de comportamento da chuva. Indiferente se a alteração do clima possa ser antrópica ou não, o que estamos vivendo hoje é uma nítida aceleração dos processos de convecção. A água evapora, circula e volta a chover. Chuvas torrenciais que antes tinham um período de retorno mais amplo, elas começam a acontecer com mais freqüência. E o período de estiagem, também. São tempestades intercaladas de secas” afirma Roberto Kirchhein, hidrogeólogo do Serviço Geológico Nacional.

Encontrei acidentalmente o Seu Itamar Jesus cavando um poço no quintal de casa na área rural de Pedra Grande. “É o segundo que já perfurei na enxada. O primeiro já estava com 25 metros mas desmoronou uma parte e perdi o trabalho. Agora este aqui tem 13 metros” me conta. Ao tentar entender como fez para escolher o local da perfuração, ele quebra uma forquilha de madeira em um planta e mostra o galho se curvando para o solo como um ponteiro. Eu me assustei com a cena quase mística e tentei fazer igual, sem sucesso. Esse método de achar água faz parte do imaginário e da transferência de saberes que são passados de geração em geração. De fato trata-se de um fundamento de rabdomancia, em que um campo magnético é estabelecido entre a pessoa e a água - profunda - em movimento. Chega a ser perturbador quando a vemos pela primeira vez. Agachado no chão, em uma posição que fazia eu parecer um sapo, eu tento de novo sem sucesso. Cauê, filho do seu Itamar dá risadas, diz que meu sangue não deve ser tão bom. Esse método representa uma fonte de precisão formidável para os que a usam e combinam seu conhecimento com o da região “Não costuma falhar, mas acho que terei que cavar muito até encontrar a água” me lembra o Seu Itamar.

Assim como no Vale do Jequitinhonha, em diversos outros confins do planeta, a fartura se converteu em temor. A mudança do clima pode ser um fenômeno global, mas se manifesta no estresse cotidiano de quem percebe a escassez se aproximando. Sobretudo famílias em vilarejos, longe das cidades, que dependem da chuva, de rios e derretimento de geleiras, que outrora ofereciam não outra coisa senão regular tranquilidade hídrica. Um dos locais que sentem mais fortemente o aquecimento do planeta são as cidades que vivem encravadas nos veios do Himalaia, na Ásia. Eu estive em Ladakh, formalmente norte da Índia, em dezembro de 2018 para testemunhar essa metamorfose no estilo de vida das pessoas.

A senhora Stanzin Iadol me leva até seu vilarejo natal Shara, não muito longe da cidade de Leh, a maior da região. Hoje sua casa está abandonada e a vila inteira foi literalmente evacuada por um motivo primal: acabou a água. Em um certo dia, com o adubo já distribuído sobre a terra, os moradores olharam a geleira secar e a água veio apenas em miúdos filetes. O maior dos temores se transformara em realidade. A água nunca mais voltou. Ela me leva até sua antiga casa vazia onde nasceu e havia vivido anos de felicidade e fartura. Foi construída por seu avó há quase 100 anos atrás. Apenas alguns

sapatos velhos e utensílios domésticos empoeiradas restavam no chão. Assim como a água, terminou a saga humana em Shara e todos se foram.

Essa parte da Índia mais se assemelha a um grande deserto, não fosse o fato de que nos severos invernos, tudo se transforma em uma massa branca infinita de neve. A contradição é que a mesma neve que deveria prover água pelo derretimento, está vindo e indo mais rápido, não garantindo a perenidade e portanto, o controle de sua vazão. O gelo precisaria derreter ao longo das meias estações e no verão, deixando o suficiente para as pessoas e para a lavoura pelo resto do ano. Desta forma, muitas soluções que eram eventualmente praticadas por antepassados, tornaram-se o conhecimento vital para a sobrevivência em muitas regiões de Ladakh: uma delas é desviar o curso da água do derretimento do gelo para se produzir pequenas geleiras artificias em encostas sombreadas. A vida ainda resiste através da sabedoria. Funcionando como as barragens que vi no Jequitinhonha, as galerias artificiais tem permitido que as vilas “estoquem” a água o suficiente na forma de gelo, driblando o clima enquanto ainda é possível, garantindo o mínimo para sobreviver, pelo menos até que chegue a um contribuinte do rio Indus, o maior da região.

No começo de 2019 eu circulei por mais de 3000km pela Etiópia. Pude testemunhar histórias e encontros com pessoas que me fizeram sublinhar alguns números

assustadores. De acordo com a ONG WaterAid, apenas neste país africano, mais de 69 milhões de pessoas não têm acesso à água limpa; mais de 93 milhões não tem acesso a um banheiro decente; 8500 crianças abaixo de cinco anos morrem todos os anos por causa de diarréia ligada ao consumo de água suja. Ao chegar no pequeno município de Turmi, encravado no Vale do rio Omo, no extremo sul do país, fui visitar o hospital local. A unidade médica estava movimentada pois era dia de mercado, quando as pessoas da

etnia hammer, passar pela região e aproveitam para se consultar com o médico, Dr. Seid Ebrahim que domina os dialetos locais. Os casos são diversos, que variam de picadas de cobra até pacientes com malária avançada. O hospital tem uma boa estrutura, recebeu equipamentos de entidades e doações. Possuem ultrassom, um maternidade bem arrumada e até uma incubadora para os recém nascidos que requerem cuidados especiais no pós parto. As pessoas trabalham muito, os médicos possuem uma atitude sorridente e humanizada e penso que ali é uma dádiva em uma região que aparentemente é carente de tudo. Ao passar os olhos pelo prontuário daquela manhã, vejo alguns números que são muito ilustrativos: de 20 pacientes, 7 estavam lá por problemas relacionados à água.

Não muito longe do hospital de Turmi, caminhei pelo rio seco arenoso do rio Keske. Os moradores estavam cavando enormes buracos com as mãos para achar uma linha de água barrenta a partir de uns 2 metros de profundidade. A cena me pareceu muito perturbadora mas foi se tornando cada vez mais comum. Eu entrei em um desses buracos, ao passo que percebi como são claustrofóbicos e a água negra tinha uma infinidade de insetos mortos, como formigas e abelhas. As pessoas se revezam no trabalho de coleta, usando um galho de árvore como escada. O que para mim era a imagem mais emblemática da escassez de água que eu jamais havia testemunhado, nada mais era do que a rotina de todos - empresários, crianças, mulheres, idosos - que cavavam, pegavam um pouco de água escura e levavam embora como podiam. Ora nas costas, ora em charretes puxadas por uma mula. De vez em quando um caminhão pipa se acoplava ao buraco com uma bomba elétrica para sorver o barro úmido. Incomodado com a situação, inocentemente eu perguntei para algumas pessoas se a água era ao menos filtrada ou fervida para o consumo. Então o pequeno garoto Musa pegou a garrafa

com a água amarelada que carregava no ombro e bebeu diante dos meus olhos. Ninguém sequer limpa a água antes de beber, ela é servida inclusive para bebês recém nascidos, e esse relato foi se confirmando cada vez mais. De acordo com a especialista Maude Barlow “O número de crianças mortas devido à água suja supera o de mortes por

guerras, malária, HIV e acidentes de trânsito”. Em seu livro Água - Pacto Azul, ela aponta pelo menos três cenários para nossa reflexão: O mundo está ficando sem água doce por desvio, esgotamento ou poluição das fontes disponíveis; A cada dia, mais pessoas estão vivendo sem acesso à água limpa; Há um obscuro cartel corporativo capaz de assumir o controle de todos os aspectos da água a fim de obter lucro em benefício próprio.

Toda essa documentação de histórias da água pelo mundo me leva a constatar também que esta é uma saga predominantemente feminina. Assim como Márcia, no Brasil,

Stanzin na Índia ou as mulheres hammers na Etiópia, muitas outras mundo afora estão sendo as protagonistas de uma geração que precisa lidar com as decisões e o legado de quem não priorizou a água no passado. Hoje, a ideia da fonte infinita, dá lugar a um tom mais realista: a água nunca vai acabar, mas as fontes limpas estarão disponíveis apenas para os que poderão pagar por elas. Um drama ecológico que irá aprofundar as diferenças entre as pessoas, transformando-o num drama humanitário.

A crise hídrica é uma pequena amostra do que nós estamos fazendo com nós mesmos. É um lento suicídio coletivo. Os maiores problemas que enfrentamos hoje - pobreza, saúde precária, ausência de educação, injustiça social, insegurança alimentar - possuem uma razão em comum: a água. Olhando para os rios Jequitinhonha, Omo e Indus desaparecendo no horizonte, estejam secos ou causando enchentes, percebi que não enxergo mais a crise hídrica como um alarme para o futuro, mas algo em pleno curso. Em alguma instância, cada um de nós já deve tê-la sentido. Estatísticas, descobertas e estudos nos dão apenas uma tímida perspectiva da tragédia. Por isso, combinei o viés histórico, ecológico e geológico e resolvi olhar tudo como uma coisa só: através das pessoas. Aquelas que já acordam todos os dias e precisam pensar em como conseguir água naquele mesmo dia. Apenas elas nos darão um panorama da real dimensão desta crise.