histórias

Prudentópolis (para NATIONAL GEOGRAPHIC | 2015)

(trecho de texto de Fernando Honesko publicado em 2015 pela revista National Geographic)

No interior do Paraná, descendentes de ucranianos se esforçam para manter velhos costumes e o espírito da comunidade, baseado no uso coletivo da terra. A maior colônia ucraniana no Brasil, em Prudentópolis, surgiu assim, fruto de um esforço de 1 600 famílias que, de 1891 a 1909, começaram a chegar ao interior do Paraná. Os pioneiros encontraram ali matas de um estranho pinheiro, com copas altas que se intercalavam a outras de folhas pequenas adaptadas para suportar o inverno frio dos planaltos. Essas curiosas árvores derrubavam bolas de sementes, o pinhão, que tanto os animais quanto os antigos habitantes da região – os caboclos – apreciavam como alimento.

O Paraná era uma terra pouco habitada. Os vastos campos mistos com matas de araucária pertenciam a fazendeiros que pouco controlavam suas propriedades. Posseiros e antigos agrega- dos se espalhavam em busca de sobrevivência após a decadência do tropeirismo, sob constante ameaça de anexação aos castelhanos vizinhos. Os ucranianos, e outros eslavos, chegaram ao Brasil como estratégia política de ocupação daqueles territórios quase isolados da jovem república.

“Os pioneiros fugiam da miséria e do poderio político dos poloneses e austro-húngaros. Quando chegaram aqui, uma das primeiras coisas que pediram em cartas foram padres e freiras”, diz Meroslava Krevei, responsável pelo Museu do Milênio, que mantém, na cidade, uma coleção de ferramentas, fotografias e objetos desse período. Aos poucos, a interação dos europeus com os brasileiros de origem cabocla fez surgir uma organização nova, de uso coletivo da terra, que resultaria, mais de 120 anos depois, em propriedades como a de Rafael Zakalugem: os faxinais.

Essas comunidades surgiram de um choque cultural. Na época, os “caboclos” cercavam suas lavouras e coletavam a erva-mate na  floresta, onde seus rebanhos circulavam livres. Os imigrantes faziam o oposto: plantavam sem cercas e prendiam os animais como faziam na Europa. Por isso, seus cultivos eram atacados pelos animais soltos dos brasileiros. Após muitos conflitos, acordos comunitários estabeleceram grandes áreas comuns de criadouros, que, cercadas, man- tinham os animais longe das lavouras, mas com acesso à mata. Ali, eles faziam uma espécie de “faxina” ao se alimentar de capim e outros arbustos, o que favoreceu o desenvolvimento dos ervais nativos, um dos mais importantes produtos daquele período. Daí o nome “faxinal”, dado aos bosques dessa região e ao sistema de organização da terra que ultrapassava a propriedade privada.

No topo de um morro ao lado de uma estrada de terra engolida pela erosão, um pequeno cemitério funciona como mirante para o Faxinal Paraná Anta Gorda, a 17 quilômetros de Prudentópolis. Estou à procura da moradora mais antiga da comunidade ucraniana, Maria Glubicz. A casa de madeira rosa tem todas as janelas fechadas. Vou até os fundos. Quando me aproximo, uma senhora, curvada pela idade, se espanta com minha presença. Viúva e sem  lhos, o incômodo de ter estranhos em sua casa passa quando dona Maria percebe a chance de ser ouvida. Após comentar os males que vieram com os 83 anos da vida, ela revela um pouco do passado da Prudentópolis dos imigrantes com comentários um pouco desconexos sobre antigas famílias.

Sem se dar conta, dona Maria troca o por- tuguês pelo ucraniano. O teor das histórias se mede, então, pela sua expressão: ora muito dra- mática, ora marcada por gargalhadas. O portu- guês volta a ser o idioma. Dona Maria abaixa a voz e conta que, um dia, teve uma experiência de quase morte. “Eu me via deitada e perguntava: ‘Quem é aquela ali? Sou eu?’” E, com detalhes, descreve uma grande luz quando reencarnou. Em uma série de histórias místicas, dona Maria mostra que os faxinais preservaram mais que a natureza. Preservaram a autêntica cultura desses ucranianos que ajudaram a moldar o Paraná.

“Os pioneiros contavam sobre uma guerra, na qual os inimigos atiravam contra o Exército, mas os tiros voltavam e os atingiam. Eles olharam no alto de um morro e lá estava Nossa Senhora”, diz ela, abrindo os braços para ressaltar o milagre.

A lenda dessa antiga luta remete à história da Guerra Polaco-Otomana, quando invasores turcos atacaram, em 1675, o monastério de Pochaïv, na Ucrânia, então dominada pelos poloneses. Ao escutá-la na voz de Maria Glubicz, me parece que a luta dos ucranianos de Prudentópolis é também contra o esquecimento. Assim, enquanto esses brasileiros de olhos azuis e cabelos amarelos como trigo lutarem para se manter como comunidade, dona Maria, de fato, nunca irá morrer. Como na Praça da Independência de Kiev, Prudentópolis será, por muitas gerações, um campo de resistência da cultura ucraniana.